Quais os benefícios da prática pelos pequenos? Conversamos com Cris Pitanga, professora de yoga para crianças e autora de “Yoga com Música” (livro acompanhado de CD, editado pela Omnisciência), que tem servido de instrumento para ensinar posturas e valores humanos às crianças e, ainda, promover momentos de alegria em família.

Confira:

1 – Qual a idade ideal para começar uma prática de Yoga?

As aulas são ministradas de uma forma lúdica: utilizamos músicas, contação de histórias, teatro, jogos grupais e artes. Esses recursos ajudam a inspirar e motivar a criança a praticar as posturas, as técnicas de respiração e de relaxamento da yoga.

Desta forma, como nosso trabalho é focado em atividades e técnicas lúdicas, trabalhamos com crianças a partir de 3 anos, porém, é necessário que o professor tenha experiência em lidar com os pequenos, pois nessa faixa etária existem peculiaridades, que requerem do professor a capacidade de adaptar ao ensino da Yoga métodos específicos a esta fase. Mas, independentemente da idade, as crianças participam ativamente das aulas. Procuramos respeitar as características e interesses dos pequenos, com isso, eles aproveitam esses momentos com muita alegria.

2 – Quais os benefícios que o Yoga pode oferecer às crianças?

Muitos são os benefícios, vou citar os principais:

– Nos exercícios especiais, “asanas”, ou posturas físicas: imitando os animais, as crianças adquirem uma maior consciência do corpo, maior desenvolvimento psicomotor, melhora da postura corporal e do fluxo de energia vital por todo o corpo;

– Aprendem métodos para desenvolver a calma, a concentração, a memória e o raciocínio, beneficiando o processo de aprendizagem;

– Exercitam técnicas de relaxamento e respiração para combater o estresse infantil, a tensão, a agitação e a ansiedade, tão comuns também no universo infantil, promovendo as qualidades da paz, da calma, do amor, do equilíbrio e da harmonia.

3 – Como elas percebem esses benefícios?

Normalmente, elas dizem que a yoga ajuda na escola, no relacionamento com os amigos e família, pois aprendem a cooperar, a dividir o que tem e a ensinar o que sabem. Elas também nos dizem que eliminam o nervosismo para fazer provas ou apresentar trabalhos.
Costumam falar para os pais que eles estão precisando fazer tal postura ou tal respiração, porque estão muito nervosos ou estressados.

Elas gostam muito de ensinar para os bonecos, irmãos e familiares o que aprendem nas  aulas. Os pais dizem que elas decoram tudo e ensinam os detalhes do que aprendem, falando inclusive dos efeitos dos exercícios.

Os pais costumam nos dar feedbacks, dizendo que a Yoga melhora a postura corporal, que crianças agitadas se tornam mais calmas, outras – apáticas – ficam mais despertas, e que ainda melhoram a concentração e o desempenho escolar.

Eles nos contam situações em que a criança usou o que aprendeu, como por exemplo: Certo dia, uma criança que pratica yoga estava numa atividade em que houve uma briga porque um amigo furou a fila. Ela conseguiu parar tudo e explicar para os amigos que não era preciso brigar e que não precisamos ser os primeiros sempre. Podemos resolver nossos problemas em harmonia, quando cedemos a nossa vez para o nosso amigo. Os adultos que acompanharam a situação ficaram encantados. A mãe disse que tinha certeza que aquela atitude ela havia aprendido nas aulas de yoga.

4 – Como deve ser uma aula?

Nossa metodologia aplicada no ensino de yoga vê a criança de uma forma integral, ou seja, como um ser que necessita adquirir conhecimentos, trocar experiências, aprender técnicas para seu desenvolvimento psicomotor, emocional-afetivo, social, mental e espiritual.  Assim, de uma forma lúdica e criativa trabalhamos nas aulas tanto os conceitos e a filosofia do yoga, como ajudamos a criança a  acessar as qualidades da paz, da alegria, da paciência, do amor.

Um dos pontos relevantes dessa metodologia é a preparação do professor como um estudante e praticante de yoga, que diariamente procura se  aperfeiçoar nesta prática milenar para que, assim, a partir de suas próprias vivências, possa ajudar  as crianças a conhecerem e vivenciarem diferentes aspectos do conteúdo filosófico-prático da yoga.

As contribuições e ideias apresentadas pelas crianças em sala de aula são valorizadas e utilizadas para que elas se envolvam cada vez mais no processo de aprendizagem.

Iniciamos as aulas sempre com alguma atividade calma, seguida de exercícios e técnicas que preparam e aquecem o corpo. Durante a aula, as crianças aprendem diferentes posturas, imitando animais, elementos da natureza e objetos e, ao final, são convidadas a relaxar e se acalmar. Os jogos, brincadeiras, músicas e histórias vão permeando a aula, permitindo que o trabalho flua de tal forma que a criança se envolva tanto nos momentos de movimento como nos de relaxamento.

leão

5 – É possível dar meditação às crianças? Quais os benefícios que esse tipo de prática traria?

No nosso trabalho com yoga infantil, damos ênfase às técnicas e conceitos do yoga, aos valores essenciais. Ensinamos os princípios de concentração e de observação da respiração, como primeiros passos para a prática da meditação. A base principal de nosso trabalho é associar as técnicas da hatha-yoga aos ensinamentos dos valores humanos abordados na ciência da yoga como modo de vida, apresentados na obra de Paramahansa Yogananda, autor do clássico “Autobiografia de um Iogue”.

Existem duas formas das crianças aprenderem a meditação: uma delas é ensinar as técnicas de respiração e de visualização, que as ajudem  a entrar em contato com as qualidades de paz, amor, alegria, ou seja, com as qualidades de sua alma. De uma forma lúdica e vivencial, elas aprendem a meditar nos sentimentos e qualidades que permeiam o seu ser, para que assim possam viver de forma mais calma e pacífica.

A outra forma, seria a criança aprender as técnicas iniciais de meditação, que são passadas dentro de um grupo espiritual, com professores que baseiam seu conhecimento na orientação espiritual de uma linhagem de mestres realizados, pois esse conhecimento vai além da hatha-yoga – onde o foco principal são as asanas e técnicas de respiração e relaxamento. Este formato de meditação para crianças não faz parte de nossa metodologia, mas cabe a nós ressaltar a existência dele, pois muitas famílias podem ter o interesse em oferecer aos seus filhos a oportunidade de se aprofundarem nessas técnicas.

Nesses casos, especificamente, sabemos que a meditação para crianças pode apresentar uma grande evolução na vida delas, em todos os seus aspectos, já que proporciona muitos benefícios, como: um estado elevado de concentração; paz interna – que lhes dá um sentimento de confiança e segurança interior; compreensão superior de seu papel e de sua contribuição para a harmonia do ambiente em que vive; alegria muito profunda e permanente; e uma grande auto-confiança, pois, na verdade, ela estará depositando sua fé em algo maior do que a sua família e seus amigos.

6 – E os pranayamas, como podem ser dados às crianças? Quais os benefícios e qual o mais indicado?

O hatha yoga é baseado nos oito passos descritos por Patânjali no seu livro “Yoga Sutras”. Assim, todo praticante procura seguir esses passos, que se fundamentam em um maior conhecimento de si mesmo, uma melhor relação com os outros e o mundo que nos cerca, a prática das posturas/asanas, técnicas de pranayama, concentração, meditação, controle mental e dos pensamentos, para atingir o samadhi: a autorrealização do ser.

Originalmente, o praticante de yoga, na Índia, sempre estudava os ensinamentos de um Mestre, que já havia seguido esses passos e que pudesse orientá-lo, principalmente no que diz respeito às técnicas de pranayama e meditação.

Atualmente, muitos praticantes de yoga, inclusive no Ocidente, seguem os ensinamentos de um Mestre, nessa forma original, mesmo que seja através de uma instituição – caso o mestre não esteja presente em uma forma física.

Nós, como professores de Yoga, que ainda estamos estudando e nos aperfeiçoando nessas práticas, deveríamos, apenas, trabalhar com as crianças a consciência da respiração. De uma forma lúdica, ajudá-las a aprender a sentir o ato de respirar, adquirindo – assim – mais equilíbrio emocional, quietude mental, relaxamento físico e calma interior.

Quando a criança nos diz que um amigo estava gritando com ela, então, respirou fundo, falou baixinho, e – com isso – seu amigo ficou calmo; que num dia de prova fez a respiração do balãozinho e o nervosismo foi embora; que estava agitada, fez a técnica de respiração do “sopro há” e parece que, como uma mágica, ficou novamente calma; que, ao respirar, sente como se estivesse mergulhado num mar de paz… podemos concluir que o professor deve ensinar a respiração de uma forma simples e efetiva. Com estes exercícios, as crianças relaxam das pressões e tensões tão presentes na vida moderna, além de aprenderem a usar sua própria respiração como um recurso, que pode ajudá-las em suas vivências diárias.

Assim, as técnicas de pranayama, em que aprendemos a controlar a energia vital sutil, devem ser vivenciadas numa fase em que o jovem ou o adulto possa estudá-las e praticá-las, sob a orientação e o acompanhamento de um Mestre/Guru ou de uma escolha espiritual dos pais.

Folha Dobrada

7 – Como o resto da tradição do Yoga pode ser passada para as crianças (mitologia, rituais)?

Através de experiências e vivências lúdicas, ajudamos a criança a entender, mais facilmente, a tradição do yoga, que envolve seus conceitos, costumes e mitologia. Assim como utilizamos  a contação de histórias, lendas e fábulas.

8 – Conte um pouco da sua experiência dando aula para crianças.

É maravilhoso! Muitas vezes, dou aula contando alguma lenda da Índia ou histórias de animais. Conforme vou apresentando a história, vamos praticando as posturas de yoga. Esses momentos são muito mágicos, porque entramos num mundo imaginário e lúdico das crianças. Elas vibram, participam o tempo todo, fazem tudo naturalmente e alegremente. Nesses momentos, elas demonstram um grande interesse e carinho que têm pelos animais e pela natureza.

Sempre, no meio da aula, tem um momento de quietude. Certo dia, uma aluna sugeriu que fizéssemos uma estátua em pé, tipo daqueles jovens que ficam nos sinais de trânsito. Cada uma criou sua estátua e fui conduzindo o exercício, elas ficaram super concentradas e – nesse momento – aproveitei para falar um pouco sobre os efeitos da concentração para a vida delas. As crianças respondem muito bem quando a aula vai acontecendo conforme o professor planejou, mas também com as sugestões que elas vão apresentando. Percebo que isso ajuda muito a criar um clima de respeito mútuo, como também sugere mais limite às crianças mais agitadas, já que se percebem aceitas – por isso, acatam as sugestões do professor.

Além das atividades lúdicas, história, teatro, ensino yoga com música e muitas crianças têm se beneficiado desse recurso. A música conduz os pequenos à essência do yoga: a quietude e o silêncio interior.

Além de cantar e fazer gestos, as crianças aprendem diferentes formas de utilizar a música ao praticar as posturas. A cada dia percebo que essa técnica desperta na criança o interesse e a vontade de praticar. Depois do canto, digo que elas precisam fazer as posturas silenciosamente, sentindo a quietude, o mais valioso é que elas fazem e adentram na prática das posturas e das técnicas de Yoga.

Com isso, pelo simples fato de cantar, podem sentir as qualidades e sentimentos que precisam. Quando aprendem a usar as músicas em suas práticas, elas mergulham mais facilmente na quietude, sentindo a paz,  a calma e a paciência que permeiam o seu ser.

Outro ponto importante é que as crianças estão ficando muito tempo em frente à televisão, ao computador e com o celular. Muito educadores sabem que várias crianças não brincam como deveriam por causa de seu estilo de vida. Assim, na aula, procuro sempre deixar a brincadeira fluir, procuro usar o ato de brincar para ensinar os conceitos da yoga e suas técnicas. Desta forma, de uma aula para outra, as próprias crianças repetem o que aprenderam, pois aprenderam de uma forma lúdica. O mais importante é que elas participaram, opinaram. As crianças são muito felizes e alegres, procuro deixar essa alegria nos contagiar, nos envolver, para que possamos levar para nossas vidas esses sentimentos. A alegria da criança é pura, é divina, pois ela está o tempo todo sintonizada com sua essência, basta ter oportunidade para se expressar. Conviver com as crianças no trabalho com yoga é muito especial, sempre agradeço por essa oportunidade, a cada momento, pois as crianças são como pedras preciosas que brilham o tempo todo vibrando amor, pureza, alegria e muita luz!

Cris Pitanga (www.crispitanga.com.br): Psicopedagoga educacional, tem extensão universitária em Yoga pela FMU. Participa de congressos de Yoga no Brasil e no exterior e atua como consultora educacional há 20 anos na área interpessoal e com vivências de Yoga. Autora e compositora do livro e CD Yoga com Música, ministra o curso “Yoga para crianças” por todo o Brasil.

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