Jesus e Krishna

Foi em 1920 que o mestre iogue indiano Paramahansa Yogananda deu início ao projeto de sua vida: apresentar, ao Ocidente, a essência da ciência espiritual de seu país. Em discurso proferido na cidade norte-americana de Boston, para líderes religiosos do mundo inteiro, além de tratar de yoga, ele apontou a mensagem comum contida tanto no Bhagavad Gita, escritura sagrada da Índia, como nos evangelhos cristãos. Seu mestre, Sri Yukteswar, era um notório estudioso das religiões do Oriente e do Ocidente e no livro “A Ciência Sagrada” já havia elencado tais semelhanças.

Deste primeiro discurso proferido por Yogananda na América, surgiu um livro intitulado “A Ciência da Religião” que aborda, de forma profunda, o tema “religião”, sobretudo a verdade expressa de diferentes formas por meio dela.

Jesus e Krishna

Jesus e Krishna são os expoentes máximos do Cristianismo e do Hinduísmo, respectivamente. Além de serem cosiderados por seus devotos grande avatares – que vieram à Terra apenas para auxiliar no processo de desenvolvimento e iluminar o caminho das pessoas – as suas trajetórias também possuem semelhanças. Muito embora nascidos em países, períodos e culturas distintos, as suas vidas contém algo muito próximo. Vamos refletir sobre isso a partir de um trecho extraído do livro “A Yoga do Bhagavad Gita” de Yogananda? 

Semelhanças entre Jesus e Krishna

*Trecho extraído do livro “A Yoga do Bhagavad Gita

 

É claro que a figura fundamental do Bhagavad Gita é Bhagavan Krishna. O Krishna histórico está velado pelo mistério das metáforas das escrituras e da mitologia. As semelhanças entre os títulos “Krishna” e “Cristo” e as narrativas dos nascimentos miraculosos e dos primeiros anos de Krishna e de Jesus levaram algumas mentes analíticas a sugerir que eles fossem, certamente, uma e a mesma pessoa. Essa concepção pode ser plenamente rejeitada, com base mesmo em indícios históricos superficiais encontrados nos países em que se originaram.

KrishnaNão obstante, há algumas semelhanças. Ambos foram concebidos divinamente e os nascimentos deles e as missões para as quais Deus lhes ordenou foram preditas. Jesus nasceu em uma humilde manjedoura; Krishna, em uma prisão (onde seus pais Vasudeva e Devaki eram mantidos prisioneiros pelo perverso irmão de Devaki, Kansa, que havia usurpado o trono do pai). Tanto Jesus quanto Krishna escapuliram com êxito e foram postos em segurança quando um decreto que condenava à morte todas as crianças do sexo masculino foi proclamado para que eles fossem procurados e destruídos logo após o nascimento. Jesus foi chamado o bom pastor; Krishna, em seus primeiros anos, foi um vaqueiro. Jesus foi tentado e ameaçado por Satã; a força maligna perseguiu Krishna em formas demoníacas, buscando sem êxito assassiná-lo.

“Cristo” e “Krishna” são títulos que têm a mesma conotação espiritual: Jesus, o Cristo, e Yadava, o Krishna (Yadava, nome de família de Krishna, significa sua descendência de Yadu, originador da dinastia Vrishni). Esses títulos identificam o estado de consciência manifestado por esses dois seres iluminados, a unidade deles, estando encarnados, com a consciência de Deus onipresente na criação. A Consciência Crística Universal, ou Kutastha Chaitanya, a Consciência Universal de Krishna, é o “filho unigênito” ou único reflexo sem distorções de Deus, que permeia todos os átomos e todos os pontos do espaço no cosmos manifestado. A totalidade da consciência de Deus está manifestada naqueles que têm a plena percepção da Consciência de Cristo ou de Krishna. Como a consciência deles é universal, a luz que deles emana é derramada pelo mundo inteiro.

Um siddha é um ser aperfeiçoado que alcançou completa libertação no Espírito; ele se torna um paramukta, “supremamente livre”, e pode então voltar à terra como avatara – como o fizeram Krishna, Jesus e muitos outros salvadores da humanidade ao longo das eras. Sempre que a virtude declina, uma alma iluminada por Deus vem à terra para, novamente, impulsionar a virtude para diante (Gita IV:7-8). Um avatar, ou encarnação divina, tem dois propósitos na terra: um quantitativo e outro qualitativo. Do ponto de vista quantitativo, ele eleva o povo em geral por meio de seus nobres ensinamentos a respeito do bem contra o mal. Mas o principal propósito de um avatar é qualitativo: criar outras almas de realização divina, ajudando a tantos quanto seja possível a alcançarem a libertação.

Uma história inspiradora

CristoEm 2011, o Brother Santoshananda (da ordem monástica da Self-Realization Fellowship) esteve no Brasil e contou: “Havia uma menina que tinha  ganho da mãe um mapa mundi. Ela olhava, encantada, para a quantidade de países, cidades, rios, mares, dispostos à sua frente no papel brilhante e colorido.  O irmão mais velho, no entanto, pra acabar com a brincadeira, logo pegou o mapa e o rasgou em muitas partes, devolvendo à garotinha apenas os pedaços. A menina foi se queixar com a mãe, que prometeu trazer um novo presente ainda naquele dia. Quando isso aconteceu, no entanto, a criança já tinha resolvido o problema. Percebendo que o verso do mapa apresentava a imagem de um homem, baseou-se nisso para colar as partes rasgadas que deram forma – novamente – ao seu mapa. O que aprender com essa história? O segredo da transformação planetária, que resultará em paz e harmonia entre todos, começa na transformação de cada ser humano.”

Yogananda costumava dizer que: “Saber que os avatares divinos, para se tornarem perfeitos, já tiveram de passar pelos mesmos tipos de provas e experiências humanas por que passamos nos dá esperança em nossa própria luta.” Que Jesus e Krishna continuem nos abençoando com os seus exemplos e nós possamos, individualmente, trabalhar pelo nosso desenvolvimento tendo ciência de que – alinhados com o Pai – ele naturalmente acontecerá.


Conheça os livros citados neste artigo:

A Ciência da Religião: http://www.omnisciencia.com.br/a-ciencia-da-religiao/p

A Ciência Sagrada: http://www.omnisciencia.com.br/a-ciencia-sagrada/p

A Eterna Busca do Homem: http://www.omnisciencia.com.br/a-eterna-busca-do-homem/p

A Yoga do Bhagavad Gita: http://www.omnisciencia.com.br/a-yoga-do-bhagavad-gita/p

Carolina Conti

Carolina Conti é jornalista com especialização em Ciências da Religião pela PUC e autora do blog Altar Particular (https://blogaltarparticular.wordpress.com/). Atua como editora e coordenadora da área de Comunicação na Omnisciência.

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