O Blog Cultura da Paz conversou com Fabiolla Duarte, educadora e artista visual cuja pesquisa – tanto numa área como na outra – sempre girou em torno de um tema pra lá de afetivo: a comida. O interesse surgiu na infância, na aura mágica da cozinha: “Minha mãe cozinhava como quem busca um caminho. Quando a alimentação saudável chegou ali, veio como uma luz”, conta.

Fabiolla é a fundadora do Colher de Pau – um projeto para refletir sobre educação, infância, comida de verdade, comportamento alimentar  (incluindo BLW – Baby-led Weaning) – assuntos que pautam os seus cursos. Ela também está à frente de uma rede de apoio e incentivo a mães empreendedoras que optaram por trabalhar em casa, com comida saudável, para que possam ficar mais próximas de seus filhos.

Confira!

Fabiolla Duarte - Festival Colher de Pau

Fabiolla Duarte no primeiro Colher de Pau Festival

 

Blog Cultura da Paz: O que é e como nasceu o Colher de Pau?

Fabiolla Duarte: O Colher de Pau nasceu quando eu pesquisava sobre a introdução alimentar de meu filho. Em uma roda de pós-parto, mães trocavam informações sobre o assunto, e quando compartilhei minha trajetória e pesquisa, fui convidada a compartilhar com mais mães e famílias.

Assim nasceu a primeira versão do Colher de Pau, que na época, há 6 anos, se chamava “Do peito à panela”.

Esse projeto é minha síntese, como educadora, a respeito do que se trata o desenvolvimento infantil em relação à introdução alimentar dos bebês. Dentro de minha pesquisa cheguei à conclusão que a fase de introdução de alimentos é o resultado de um salto de desenvolvimento, como tantos outros da infância.

Esse salto tem a ver com um conjunto de sistemas em acordo e harmonia, como em uma engrenagem, funcionando em função de uma nova direção de aprendizagem. Sistema motor, cognitivo e digestivo juntos, levando um bebê a comer e tudo fluir sem stress.

 

Blog Cultura da Paz: Quais os principais benefícios do BLW?

Fabiolla Duarte: O BLW é um dos tripés do Colher de Pau. Sinto que ele é muito importante sim, mas não é tudo. Muita gente estuda o assunto e aplica com a expectativa de que terão sucesso na introdução alimentar, e não é bem assim. Sem compreender a respeito dos aspectos da prontidão do bebê, o BLW vem como muleta que cuida do cenário temporariamente. Vejo há anos famílias que vão por esse caminho, e em pouco tempo o bebê para de comer. E aí começa um braço de ferro que pode levar esse drama pela infância afora.

Isoladamente analisando o BLW considero, sim, fundamental, enquanto oportunidade cognitiva e motora de desenvolvimento. Comer é estar com os pés apoiados e pegando seu próprio alimento com as mãos. Isso é ancestral e tem a ver com segurança alimentar. Se um bebê pega um alimento com as mãos, ele só leva à boca se quiser. E quando quiser. E na medida que for mais confortável. Índice de engasgos diminuem muito, então.

 

Blog Cultura da Paz: Um dos tópicos do seu curso é “alimentação adulta x introdução alimentar: vida familiar à mesa e como podemos ser coerentes”. Você pode falar um pouco sobre ele?

Fabiolla Duarte: Não entendo introdução de alimentos como uma momento separado do todo gastronômico familiar. Não é natural. Não faz sentido. Comer é comer junto e partilhando. Entendido isso, fica claro então que um bebê come da comida da família, com a família, nos horários da família.

A família então é a responsável por olhar para sua comida. Se a comida for uma comida de verdade, original, tudo bem o bebê comer. Se não for, não é bom o bebê comer e nem a família comer. É claro que existem comidas culturais importantes para nossa biografia. Vêm de um contexto, em eventos familiares, e comê-las é estruturante. Mas fora isso, no dia a dia, comer deve ser prazer, autocuidado e partilha.


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Blog Cultura da Paz: Conte-nos do projeto mães empreendedoras.

Fabiolla Duarte: Escuto há anos mães angustiadas com a volta ao trabalho, querendo empreender com comida e ficar perto de seus bebês. O Colher de Pau Festival nasceu desse lugar. Eu quero alavancar o trabalho de quem empreende comida de verdade, original, e criarmos juntas uma nova economia. Uma rede que se apoia e que sabota os ultraprocessados. E assim cuidamos de nossas crianças em muitos níveis.

Tivemos uma primeira edição novembro do ano passado, e teremos uma nova edição agora nesse ano, em maio.

 

Blog Cultura da Paz: Por favor, você pode dar algumas dicas para mães e pais:

  • cujo filho não nasceu, mas que querem introduzi-lo na alimentação saudável desde os primeiros meses

 

Fabiolla Duarte: comer uma comida saudável, em família, mas pensar nessa escolha a partir da auto-escuta, e não de ideologias alimentares.

Se uma pessoa se sente melhor sendo vegetariana, seja então. Se escolhe por ser uma ideologia que cuida de suas crenças, pode ser que fique descuidada nutricionalmente, caso seu tipo seja onívoro.

 

  • que se interessam pela BLW e querem mudar a alimentação do filho, mas não sabem como fazer

Fabiolla Duarte: Não é para mudar a alimentação do filho. É para cuidar da alimentação da família enquanto organismo.  Quanto ao BLW é simples: Deixe o bebê ir até a comida e administrar a vivência, mas se for o adulto que direciona ou que determina o dia que isso acontece, pode virar uma bagunça danada as refeições, e a família volta para a papinha. BLW dá certo quando o bebê está pronto para comer. Antes disso, vira a festa do caqui.

 

Mais sobre Fabiolla Duarte e o Colher de Pau: http://vilamamifera.com/alimentoecomportamento/

Carolina Conti

Carolina Conti é jornalista com especialização em Ciências da Religião pela PUC e autora do blog Altar Particular (https://blogaltarparticular.wordpress.com/). Atua como editora e coordenadora da área de Comunicação na Omnisciência.

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